dez
15
2014

Produtividade no Brasil: desempenho e determinantes

No período entre o início da década de 2000 e a eclosão da crise financeira internacional, em 2008, o Brasil passou por um ciclo de crescimento econômico e inclusão social. Mesmo no período posterior a 2008, no qual, com exceção de 2010, as taxas de crescimento do produto interno bruto (PIB) foram inferiores às do período anterior, não se observaram retrocessos nos ganhos obtidos em termos de renda per capita e de redução da desigualdade social.

Os fatores que concorreram para esse ciclo de crescimento econômico e inclusão social envolviam as políticas sociais de redistribuição de renda e de valorização do salário mínimo, a expansão do crédito, a incorporação de um grande contingente de população ao mercado de trabalho e de consumo e um cenário externo de crescimento acelerado que impulsionou a valorização de commodities exportadas pelo Brasil. O ciclo esteve, portanto, fortemente associado ao crescimento das taxas de ocupação e de participação, e não parece ter sido acompanhado, na mesma proporção, pelo crescimento dos indicadores de produtividade.

Quando se considera, ao lado dessa breve análise, que os indicadores do mercado de trabalho revelam que o país praticamente alcançou o pleno emprego e que, por razões demográficas, a taxa de participação tende a declinar no longo prazo, verifica-se que a sustentabilidade do ciclo de crescimento que marcou a economia brasileira ao longo da década de 2000 requer, a partir de agora, a elevação de seus níveis de produtividade.

Um conceito, várias medidas

Os estudos que analisam a evolução dos indicadores de produtividade no país podem ser segmentados em dois grupos principais. No primeiro deles, os autores calculam a Produtividade Total dos Fatores (PTF) e decompõem as taxas de crescimento do produto nas taxas de crescimento do capital, do trabalho e da própria PTF para interpretar os movimentos observados na economia brasileira. Em virtude de um conjunto de dificuldades metodológicas – como a ausência de séries consolidadas para o estoque setorial de capital –, essas análises em geral têm um caráter mais agregado. O segundo grupo é formado pelos estudos em que se usam indicadores de produtividade parciais e, em particular, a produtividade do trabalho, que não possuem algumas das dificuldades metodológicas dos indicadores de PTF, embora tenham limitações importantes.

A produtividade do trabalho é a medida mais simples e direta para chegar a algum indicador sobre a eficiência da economia, de seus setores ou agentes econômicos. Ela consiste na utilização de alguma medida de produto em relação a alguma medida de mão de obra empregada na produção. A primeira e mais evidente limitação desse indicador é que se trata de uma medida parcial de produtividade que leva em conta apenas um dos fatores empregados na produção – o trabalho – e ignora tanto a intensidade quanto a qualidade do capital utilizado, assim como a qualidade do trabalho (ou o capital humano). Por essa razão, boa parte das diferenças observadas na produtividade do trabalho entre setores, empresas ou mesmo no tempo, decorrem das diferentes intensidades de utilização de capital. Ainda assim, a evolução da produtividade do trabalho pode amparar análises sobre o crescimento econômico, conforme se argumenta a seguir.

Crescimento da produtividade do trabalho e o crescimento do PIB

A associação entre o crescimento da produtividade do trabalho e o crescimento do PIB pode ser explicitada de diversas maneiras. Uma maneira simples de tornar clara essa relação é usar a identidade algébrica PIB = (PIB : PO) x PO, em que  PO  é o pessoal ocupado. A manipulação algébrica desta identidade permite concluir que a taxa de crescimento do PIB corresponde à soma das taxas de crescimento da produtividade do trabalho e da taxa de crescimento do pessoal ocupado:

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Na equação (1), a barra superior indica a taxa de crescimento da variável correspondente.1

A decomposição indicada na equação (1) pode ser usada para interpretar o crescimento do PIB no Brasil ao longo da primeira década dos anos 2000. Entre 2000 e 2009, por exemplo, a taxa média anual de crescimento do PIB alcançou 3,42%. Apenas um terço deste crescimento pode ser atribuído ao crescimento da produtividade do trabalho. Os dois terços restantes advieram do crescimento do pessoal ocupado, ou seja, do aumento da taxa de ocupação e, em menor medida, da taxa de participação. O fato de a população ocupada ter crescido a um ritmo maior que o da população total explica por que o PIB per capita descola-se da produtividade do trabalho quando suas trajetórias são mostradas graficamente (gráfico 1). Obviamente, esse deslocamento só se sustenta durante um período curto de tempo.

Gráfico 1: PIB per capita e produtividade do trabalho – Brasil (1992-2011)

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Nota: para a construção do gráfico, no qual o ano de 1992 é usado como referência, empregaram-se as séries de PIB e população disponíveis no Ipeadata e as séries de PO e PEA do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) processadas pela Diretoria de Estudos e Políticas Sociais (Disoc) do Ipea, a partir da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), para torná-las compatíveis com as definições que o instituto adota atualmente. Fonte: Cavalcante e De Negri (2014).

 

É fácil observar que, ao longo da década de 1990, o PIB per capita e a produtividade do trabalho cresceram pari passu. Contudo, a partir do início da década de 2000, houve um crescente descolamento entre essas duas variáveis. A diferença fundamental entre os dois períodos diz respeito aos fatores que mais explicam o crescimento do PIB per capita. Enquanto mais de 90% do crescimento no período 1992-2001 se deveu à produtividade do trabalho, no período 2001-2009 apenas pouco mais da metade do crescimento do PIB per capita foi explicado pelos ganhos de produtividade, e o restante foi devido ao aumento das taxas relacionadas ao mercado de trabalho e a variáveis demográficas. Assim, as taxas médias de crescimento da produtividade nos períodos 1992-2001 e 2001-2009 são muito semelhantes, mas, no segundo período, a contribuição das variáveis relacionadas ao mercado de trabalho e as variáveis demográficas (que, na década anterior, havia se limitado a menos de 7%) é superior e explica o crescimento mais acelerado do PIB per capita. Desse modo, foram a incorporação de um grande contingente populacional ao mercado de trabalho e a redução dos níveis de desemprego que explicaram uma parcela significativa do crescimento do PIB per capita no período entre 2001 e 2009.

A trajetória da produtividade

Um dos primeiros resultados evidenciados no livro “Produtividade no Brasil: desempenho e determinantes” é que, independentemente da forma como se meça, de qual indicador ou nível de agregação se utilize ou ainda, a qual país se compare, a produtividade brasileira teve um desempenho muito fraco nas últimas décadas. Desde o final da década de 1970, a produtividade não cresce de forma substantiva e sustentada. O sinal geral de todos os indicadores – PTF ou produtividade do trabalho – aponta nessa direção.

Ellery Jr (2014) calcula a PTF no período entre 1970 e 2011 a partir de: i) diferentes deflatores da PTF ii) diferentes deflatores para o investimento; iii) diversas medidas para a quantidade de trabalho; iv) inclusão de indicadores de capital humano; v) ajuste para utilização da capacidade instalada. Mesmo utilizando todas essas diferentes medidas, o autor argumenta que elas não alteram o fato central que, em qualquer uma delas, a PTF cresceu pouco no Brasil durante esse período. Segundo o autor “a trajetória da PTF (…) consiste em crescimento na primeira metade da década de 1970, crescimento irregular na segunda metade da década de 1970, queda na década de 1980 e uma recuperação iniciada na década de 1990 que foi insuficiente para recuperar as perdas da década de 1980”.

Por sua vez, a taxa média anual de crescimento da produtividade agregada do trabalho no Brasil (definida como o quociente entre o PIB e o pessoal ocupado total) foi de 1,09% no período entre 1992 e 2001 e de 1,17% entre 2001 e 2009. Ainda que os diferentes métodos utilizados para ajustar as séries de pessoal ocupado – e, por vezes, as diferentes agregações de períodos de tempo – possam levar a resultados um pouco diferentes, pode-se afirmar que a produtividade do trabalho manteve, nas décadas de 1990 e 2000, uma trajetória de crescimento estável, porém reduzido (da ordem de 1% ao ano). O desempenho setorial, contudo, varia muito, havendo sinais claros de queda da produtividade do trabalho na indústria de transformação. Já a agropecuária e a indústria extrativa exibiram taxas de crescimento da produtividade do trabalho de 3,8% e 2,0% ao longo da última década. A análise amparada na relação entre a produção física e as horas pagas revelou que a taxa média mensal anualizada de crescimento da produtividade alcançou níveis mais elevados (2,25% para a indústria geral, 2,22% para a indústria extrativa e 2,13% para a indústria de transformação) do que os observados quando se usa o valor adicionado e o pessoal ocupado. Contudo, o cenário favorável observado para os indicadores de produtividade obtidos a partir dos dados de produção física desaparece após a crise internacional de 2008.

Considerações finais e hipóteses para o baixo crescimento da produtividade

Em face dos resultados apresentados nesta breve análise, pode-se levantar um conjunto de hipóteses que explicariam os baixos níveis de crescimento da produtividade no país ao longo das últimas décadas. Autores como Miguez e Moraes (2014) e Squeff e De Negri (2014) indicam que, embora a estrutura produtiva possa ser, em alguma medida, um fator limitador do crescimento da produtividade, não serão mudanças estruturais que possibilitarão à economia brasileira novos saltos de produtividade. Embora existam diferencias substantivos no nível de produtividade – especialmente a do trabalho – entre os setores econômicos, não existem diferenças tão grandes entre a participação da indústria ou dos serviços no PIB, no caso brasileiro em relação aos países desenvolvidos.

Uma vez que a maior parte dos diferenciais de produtividade entre o Brasil e o resto do mundo é explicada pelos diferenciais intrassetoriais, é necessário buscar outros fatores, sistêmicos, para explicar a defasagem nessa variável. Para que tenham capacidade de explicar a persistência da baixa produtividade brasileira ao longo das décadas, é preciso que esses fatores sejam estruturais e não meramente conjunturais. Sem a pretensão de exaurir todos os possíveis fatores que afetam a produtividade no Brasil, vale levantar as hipóteses mais prováveis2.

No longo prazo, a tecnologia talvez seja o fator mais relevante para os ganhos de produtividade. Tanto as inovações de processo, que possibilitam uma maior produção física a partir de uma mesma utilização de fatores, como as inovações de produto, que possibilitam preços maiores por uma mesma quantidade física de produtos. Nessa área, a estrutura produtiva possivelmente importa mais, dado que a maior parte do investimento mundial em P&D é realizado apenas nos setores farmacêutico e de tecnologia da informação e comunicação (TIC).

Outro fator que, no longo prazo, é crucial para a ampliação da produtividade é a educação e a qualificação da mão de obra. É certo que, nos últimos 20 anos o Brasil tem ampliado de forma significativa a escolaridade média de sua população e de sua força de trabalho. De fato, boa parte do modesto aumento na PTF do país nos últimos anos parece ser explicada pelo aumento do estoque de capital humano. Entretanto, ainda existem questões relevantes a serem equacionadas, associadas tanto à qualidade da educação quanto às áreas de formação em nível superior e nível médio. O recente debate sobre escassez de engenheiros na economia brasileira evidencia que, em algumas especialidades, a escassez de profissionais é mais preocupante do que em outras.  Não por acaso, esse é o principal fator a impactar negativamente a produtividade, segundo enquete realizada com empresas brasileiras e cujos resultados foram relatados por Oliveira e De Negri (2014).

As deficiências de infraestrutura são outro fator relevante. Décadas de baixo investimento deixaram patente a insuficiência crônica de infraestrutura para sustentar o processo de crescimento econômico brasileiro. Em certa medida, a baixa relação capital/trabalho da economia brasileira – apontada por alguns autores3 como uma das causas para a baixa produtividade do trabalho – está associada a um baixo estoque de capital em infraestrutura.

Por fim, e não menos importante, está o que se poderia chamar de ambiente de negócios ou de qualidade das instituições. A excessiva burocracia – não apenas pública – se manifesta desde a chegada ou a saída de mercadorias nos portos, até o registro de um novo medicamento ou patente, passando pela lentidão da Justiça ou pela complexidade da estrutura tributária brasileira. Este último elemento é, na visão das empresas, uma das causas fundamentais da baixa competitividade da economia (Oliveira e De Negri, 2014). Independentemente do tamanho que se considere ideal para o Estado, não parece haver mais dúvidas entre economistas de diversas correntes de que é crucial que ele seja mais eficiente. Esse é um gargalo que, além de afetar diretamente a produtividade da economia, também tem impactos negativos indiretos, ao afetar outros fatores como a infraestrutura e a inovação.

A investigação de como essas e outras questões – tais como a concorrência e a inserção internacional – afetam a produtividade da economia brasileira é um desafio fundamental nesse momento. A análise agregada tem sido crucial para compreender algumas características e gargalos para a produtividade brasileira. Entretanto, dado que a estrutura produtiva e as características macroeconômicas explicam apenas uma parcela do baixo crescimento da produtividade, a fronteira desse tipo de investigação está na análise de como os determinantes microeconômicos e a dinâmica das firmas afetam a eficiência do país. Jogar mais luz no debate sobre produtividade a partir de uma perspectiva microeconômica pode contribuir para a formulação de políticas que garantam a continuidade do processo de crescimento econômico e inclusão social que marcou o país no período recente.

_________________

1 Bonelli (2014) apresenta uma decomposição mais detalhada.

2 Muitas dessas hipóteses serão investigadas detalhadamente no volume 2 do livro “Produtividade no Brasil: desempenho e determinantes”.

3 Ver, por exemplo, Bonelli (2014).

 

Esse texto corresponde uma versão resumida dos trabalhos “Os dilemas e os desafios da produtividade no Brasil” e “Evolução recente dos indicadores de produtividade no Brasil” disponíveis no primeiro volume do livro “Produtividade no Brasil: desempenho e determinantes”, organizado por Fernanda De Negri e Luiz Ricardo Cavalcante e publicado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada em novembro de 2014. O livro está disponível em http://bit.ly/1wzsGQh

 

Referências

BONELLI, R. Produtividade e armadilha do lento crescimento. In: DE NEGRI, F.; CAVALCANTE, L. R. Produtividade no Brasil: desempenho e determinantes. Brasília: ABDI / IPEA, 2014.

CAVALCANTE, L. R.; DE NEGRI, F.. Evolução recente dos indicadores de produtividade no Brasil. In: DE NEGRI, F.; CAVALCANTE, L. R. Produtividade no Brasil: desempenho e determinantes. Brasília: ABDI / IPEA, 2014.

DE NEGRI, F.; CAVALCANTE, L. R. Os dilemas e os desafios da produtividade no Brasil. In: DE NEGRI, F.; CAVALCANTE, L. R. Produtividade no Brasil: desempenho e determinantes. Brasília: ABDI / IPEA, 2014.

DE NEGRI, F.; CAVALCANTE, L. R. Produtividade no Brasil: desempenho e determinantes. Brasília: ABDI / IPEA, 2014.

ELLERY JR, R. Desafios para o cálculo da produtividade total dos fatores. In: DE NEGRI, F.; CAVALCANTE, L. R. Produtividade no Brasil: desempenho e determinantes. Brasília: ABDI / IPEA, 2014.

MIGUEZ, T.; MORAES, T. Produtividade do trabalho e mudança estrutural: uma comparação internacional com base no world input-output database (WIOD) 1995-2009. In: DE NEGRI, F.; CAVALCANTE, L. R. Produtividade no Brasil: desempenho e determinantes. Brasília: ABDI / IPEA, 2014.

OLIVEIRA, J. M.; DE NEGRI, F. O desafio da produtividade na visão das empresas. In: DE NEGRI, F.; CAVALCANTE, L. R. Produtividade no Brasil: desempenho e determinantes. Brasília: ABDI / IPEA, 2014.

SQUEFF, G. C.; DE NEGRI, F. Produtividade do trabalho e mudança estrutural no Brasil nos anos 2000. In: DE NEGRI, F.; CAVALCANTE, L. R. Produtividade no Brasil: desempenho e determinantes. Brasília: ABDI / IPEA, 2014.

 

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3 Comentários Comentar

  • Li e reli o texto 2 vezes e é preocupante a situação que o nosso pais se encontra.. Brasil está engatinhando ainda e se fechando para o mundo.

  • […] a produtividade como o principal problema da economia do país (discutida anteriormente no blog aqui e aqui). O crescimento da renda do trabalho nos últimos anos não foi acompanhado pelo crescimento […]

  • Muito interessante tudo isso!

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