set
22
2015

Uma fábula de improdutividade

João é inteligente e nasceu em uma família de classe alta. Estudou em boas escolas e entrou para uma universidade pública gratuita de engenharia. Formado, viu que os melhores salários iniciais de engenheiros estavam em R$ 5 mil. Fez concurso para um cargo de nível médio em um tribunal: salário de R$ 9 mil mais gratificações, aposentadoria integral, estabilidade, expediente de seis horas. O contribuinte custeou a formação de um engenheiro, e recebeu um arquivador de processos sobrerremunerado. Amanhã João estará em frente ao Congresso, com seus colegas, todos em greve por aumento salarial. Não terá o dia de trabalho descontado, nem se sente remotamente ameaçado de demissão.

Pedro não tem muito talento intelectual. Mas sua família pôde pagar uma boa escola, o que lhe garantiu uma vaga em um curso não muito concorrido em universidade pública. Carente de habilidades acadêmicas, Pedro não se adaptou e mudou de curso duas vezes, deixando para trás centenas de horas-aula desperdiçadas e duas vagas que poderiam ter sido ocupadas por outros estudantes que jamais terão acesso àquela universidade. Foi fácil desistir dos cursos, pois Pedro nada pagou por eles.

Após oito anos na universidade, Pedro finalmente se formou em biologia. Sonha em ter um emprego igual ao de João. Entrou em um cursinho preparatório para concursos públicos. Lá conheceu centenas de jovens formados em universidades públicas  que, em vez de irem para o mercado de trabalho aplicar seus conhecimentos, estão em sala de aula, decorando apostilas para conseguir um emprego público.

Jorge, o dono do cursinho, é um brilhante advogado, que poderia contribuir para a sociedade redigindo contratos empresariais. Mas descobriu que ganha mais dinheiro preparando candidatos ao serviço público.

Um dos professores do cursinho de Jorge é Manuel, que também abandonou sua formação universitária e mudou de ramo. Ao perceber que jamais exercerá a profissão original, ele pediu desfiliação do respectivo conselho profissional. Mas não consegue, porque Márcia, funcionária daquele conselho, tem como missão criar todo tipo de dificuldade às desfiliações e manter em dia a arrecadação compulsória. Manuel desistiu e vai pagar a contribuição pelo resto de sua vida profissional, ainda que não se beneficie em nada, e pouca satisfação seja dada pelo conselho profissional acerca do uso desse dinheiro.

As limitações acadêmicas de Pedro o impedem de ser aprovado em concurso público. Ele vai ser um medíocre professor, em uma escola de ensino fundamental de segunda linha (pública ou privada),  oferecendo ensino de baixa qualidade às novas gerações das famílias que não podem pagar por uma escola melhor. Pedro só conseguiu essa vaga porque há uma reserva de mercado: por lei, as escolas de ensino fundamental só podem contratar professores com diploma de nível superior. Fosse permitido contratar universitários, diversos graduandos em biologia mais talentosos e motivados que o diplomado Pedro estariam em sala de aula, oferecendo boas aulas às crianças.

Antônio é tão brilhante quanto João. Daria um excelente engenheiro, mas nasceu em família pobre e estudou em escola pública. Teve professores limitados, no padrão de  Pedro, e a desorganização administrativa da escola piorava as coisas: muitas vezes não havia professores em sala. Falta com atestado médico não dá demissão.

Antônio até conseguiu passar no vestibular de engenharia em universidade pública, pelo sistema de cotas, mas sua formação deficiente em matemática foi uma barreira intransponível. Abandou ou curso, deixando mais horas-aula perdidas e mais uma vaga ociosa na conta dos contribuintes.

Antônio, porém, é empreendedor. Não se abalou com o insucesso universitário, aprendeu a consertar eletrônicos através de vídeos no Youtube. Montou um pequeno negócio de manutenção de smartphones e computadores. Seu talento poderia torná-lo um grande empresário. Mas para crescer, ele precisa transferir sua empresa do regime de tributação SIMPLES para a tributação normal, pagando impostos muito mais altos, porque o governo precisa de muito dinheiro para pagar altos salários, para custear a universidade gratuita que desperdiça vagas e para sustentar escolas públicas que não dão aula, entre outras despesas. Mesmo assim, o governo permanece em déficit, e toma empréstimo para se financiar, aumentando a taxa de juros. Com impostos altos e crédito caro, Antônio prefere manter seu negócio pequeno. A grande empresa e seus empregos morreram antes de nascer.

Chico é um líder  talentoso. Dirige uma central sindical que congrega os sindicatos dos companheiros do judiciário e dos professores, entre outras categorias. Chico está em frente ao Congresso, apoiando a greve de Pedro por melhores salários. Faz um discurso contra os neoliberais, que só pensam em cortar gastos públicos e arrochar os trabalhadores. Chico não tem muito do que reclamar (embora, como líder sindical, a sua especialidade seja, justamente, reclamar): além da remuneração paga pelo sindicato (e custeada pelo imposto sindical, cobrado obrigatoriamente dos contribuintes), ele está aposentado pelo INSS desde os 52 anos de idade. Até o final da sua vida receberá muito mais do que contribuiu para a previdência.

Nenhum dos personagens citados tem comportamento ilegal. Eles jogam o jogo de acordo com as regras que estão postas. O erro está nas regras. Mudá-las requer superar as dificuldades das decisões coletivas. Não mudá-las implica continuar com talentos profissionais e dinheiro público mal alocados, empregos improdutivos, potenciais inexplorados, gasto público excessivo, oportunidades perdidas, incentivos errados. Uma fábula de improdutividade.

 

Este artigo foi publicado originalmente no jornal O Estado de S. Paulo, edição de 10/9/2015.

 

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Sobre o Autor:

Marcos Mendes

Doutor em economia. Consultor Legislativo do Senado. Foi Chefe da Assessoria Especial do Ministro da Fazenda (2016-18). Autor de “Por que o Brasil cresce pouco?”.

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12 Comentários Comentar

  • Nos EUA os “gênios” formam empresas ou trabalham para elas. No Brasil, o gênio quer ser servidor público. E não há nada de errado nisso: é uma questão de sobrevivência. Como é que se pode pedir a alguém que procure o pior para si mesmo, se há opções melhores? Nos EUA, a busca pelas empresas não é por “asco de mamar nas tetas do governo” ou pelo “dever civil de ser uma das peças no crescimento econômico”: é apenas consequência de se querer o melhor para si, já que as empresas lá é que pagam melhor.

    Lá, quando o governo precisa contratar servidores, corre atrás deles, porque os melhores não querem trabalha para o Estado, que paga salários menores, além da possibilidade de ser demitido a qualquer momento, como qualquer trabalhador. Não vale a pena ser servidor público americano, principalmente porque você está à mercê de vontade política para permanecer no cargo.

    Trabalhei para político anos atrás e perdi meu cargo na época para um sobrinho da vereadora. Assim mesmo, fácil, mesmo sendo melhor qualificado (claramente) que o rapaz, que ainda estava terminando o segundo grau. Na verdade, para mim, foi um alívio porque eu não estava encontrando uma maneira educada e adequada de dizer o quanto eu era mal remunerado pelo que fazia. Saí e encontrei coisa melhor.

    No Brasil, infelizmente o “melhor”, o modelo ideal que todos querem, encontra-se no serviço público, que não sofre do imenso ônus tributário/trabalhista (citando uma variável do problema) que as empresas.

    Na época em que o serviço público brasileiro pagava salários baixos, da mesma forma ninguém queria ser servidor, com exceção dos que receberiam os cargos como verdadeiras sinecuras. Alguns desses ainda estão aí. Grande parte se aposentando. Gradualmente estão sendo substituídos, mas a população não percebe isso, permanecendo com a impressão ruim na mente.

    Na Receita Federal, por exemplo, os salários eram tão baixos que o governo não conseguia atrair ninguém com as qualidades que queriam para o órgão. E não se preocupavam muito com isso. Trouxeram funcionários de nível inferior na estrutura administrativa para ascender forçadamente na carreira.

    Muitos técnicos da receita (hoje analistas tributários) haviam entrado como datilógrafos através do velho e conhecido “QI”; e os auditores eram os que haviam entrado como técnicos. Isso ocorreu até o início da moralização do serviço público, iniciada no Governo FHC, que aumentou os salários de cargos considerados estratégicos, atraindo, finalmente, os profissionais que queriam.

    Mas o negócio ainda não era tão atrativo, especialmente porque o governo FHC não conseguiu deixar as carreiras estratégicas atrativas. No começo dos anos 2000, por exemplo, muitos auditores concursados estavam saindo da RF por causa dos baixos salários. Pediam exoneração mesmo. E iam prestar seus serviços no mercado, como consultores ou professores.

    Quem sabe o valor de seu funcionário é a empresa. E o governo sabe que precisa reter os talentos, pois foram eles que conseguiram (citando a RF) fazer com que a arrecadação fiscal brasileira fosse uma das melhores do mundo, em termos de eficiência, eficácia e efetividade.

    Dai, você, que não percebe nada disso, trabalha para uma empresa que exige até seus finais de semana, seu sangue; pagando mal pelo valor que v. percebe deveria ser maior, e começa a querer atacar o servidor público achando que ele é vagabundo e desqualificado, porque você, que trabalha no limite, ganha menos.

    O ruim de tudo não é o governo pagar bons salários, mas as empresas não conseguirem seguir no mesmo rumo, essencialmente por causa dos encargos tributários e trabalhistas, coisa que o governo não sofre, afinal, tudo volta para ele. Para o empresário é despesa mesmo, sem retorno. Daí que pagar R$ 15.000,00 a um profissional é tão massacrante para quem é empresário, porque seus encargos tributários e trabalhistas fazem com que a despesa quase dobre (indo para quase R$ 30.000,00); e é ruim para o empregado, porque sua empresa vai arrancar seu sangue para poder justificar a remuneração. Você trabalha como um semi-escravo.

    É um movimento natural esse empregado querer outra coisa, não? Quem discordaria disso?

    Para o Estado não há esse ônus. Um servidor que ganhe R$ 15.000,00, vai custar efetivamente uns R$ 11.000,00 como despesa, porque o resto fica retido para o próprio Estado (Previdência e IR).

    Compare os custos efetivos de um e de outro: R$ 11.000,00 para o Estado e quase R$ 30.000,00 para o empresário. A diferença é gritante. Mas a culpa é do servidor? Claro que não. Não é caro para o Estado pagar a remuneração desse profissional (veja o custo efetivo), já para as empresas…

    Tenho certeza absoluta que as empresas não negariam um salário desses a um profissional de mesma qualificação se tivessem as mesmas vantagens que o Estado tem ao empregar. Talvez pagassem até mais, como nos EEUU e Europa.

    • Eduardo, concordo em partes com você…, acho realmente que o setor privado exagera no aspecto da cobrança e em muitos casos, exerce uma pressão enorme nos profissionais nos aspectos psicológicos, de jornadas abusivas dentre outras coisas…. No entanto, existem também empresas (e não são poucas) que tentam e tem se preocupado em equilibrar essa pressão, até por que a força de trabalho, tem mudado seus conceitos quanto a o que vale a pena (gerações e pessoas mais preocupadas em buscar equilíbrio entre vida pessoal e profissional). Quanto às Instituições administradas pelo Estado, é muito visível a falta de habilidade na gestão (muitos setores funcionam de forma precária, transporte, saúde, educação….), e com poucas exceções, os indivíduos que prestam serviço a estas Instituições se aproveitam desta ineficiência e se acomodam em suas boas remunerações e certa estabilidade de empregado, não contribuindo para com o resultado e/ou melhora das Instituições e muito menos para com a Sociedade. Trabalho em uma Instituição, e te falo…., se 20% das pessoas são realmente preocupadas com esta questão…, estarei sendo muito otimista…, o resto, tem se aproveitado das oportunidades em se manter na zona de conforto, numa forte tendência de quanto mais, melhor!! Infelizmente a realidade é essa….., e nesse contexto acho que aspectos muito mais básicos como cultura, valores da sociedade são motivadores deste tipo de comportamento…, infelizmente….

  • Interessante texto, mas sinceramente só espero que não precarizem tudo! Nesse país, as mudanças de regras só faz piorar as coisas. De qualquer sorte, tá dada a mensagem: quem cuida de si e aceita as regras dos jogos tem meu respeito. Os sonhadores, minha admiração. Já o quesito solidariedade, totalmente subjetivo.

  • Parabéns pela forma do texto, exemplos reais e cotidianos nos fazem refletir melhor acerca dos absurdos que se mantem no estado brasileiro. Realmente é preocupante pensar que hoje o cargo público é o melhor emprego no país, já que não gera nenhuma riqueza. Como uma economia pode se desenvolver assim?

  • O ridículo de toda história é que, com um setor privado deficiente e que não consegue se desenvolver o castelo de cartas do setor público vem abaixo.

  • A realidade é ainda pior do que essa fábula pois:

    O João engenheiro foi ser funcionário público, porque um colega dele que fumava maconha gazeando aula e passava nas disciplinas empurrando com a barriga era amigo de rodadas de drogas do gerente da empresa que João poderia estar trabalhando. João vive estressado com o incompetente, Pedro por que ele aprendeu a bajular políticos e conseguiu um cargo comissionado em uma Autarquia Federal com salário de 20 mil por mês, o dobro do que o João estudou para ganhar, mas o João para complementar a renda vai dar aulas no Curso do Jorge, que arquitetou um esquema antigo para vender aprovações em concursos a seus alunos em associação com o Chico, que cobra um percentual do salário do Pedro por ter feito a indicação para ele trabalhar no cargo comissionado de 20 mil reais.

    NADA É TÃO RUIM QUE NÃO POSSA PIORAR UM POUQUINHO

  • Os comentários complementaram o texto, que Por sinal explica um pouco da nossa realidade.

  • “O povo tem o governo que merece?” / “O povo tem o governo que merece!”

  • Eu tenho vergonha de ser mais eleitor que confio nestes vagabundo que só pensa em robar o nosso dinheiro. Onde está o dinheiro que roubaram da petobras. Se o Dilma Rousseff sair quem vai assumir é o vice Michael Temer será que é correto vai mudar o que ele ja esta no governo. E nada faz.

  • É o texto é fenomenal sem sombras de dúvidas. Minha opinião é que ele pode ser resumido da seguinte forma: Nossa sociedade é governada pelo capital e as pessoas sempre vão estar tentando encontrar brexas para conseguir dinheiro e mordomias. Não to julgando ninguém mas acho que essa atitude é inerente ao ser humano! E no caso essa improdutividade seria mais uma forma de economizar energia do que outra coisa.. hahahaha..

    Bem, é claro que essa é uma forma bastante egoísta de agir mas é o que somos. o ser humano em sua essencia ainda é assim mas acredito que vai mudar…

  • Péssimo texto.
    Mal escrito e de conteúdo pobre.
    Ironicamente, escrito por um servidor do Senado – consultor legislativo, cargo com a maior remuneração do serviço público, excetuados os membros de poder – e doutor pela USP.
    Seu trabalho é assessorar senadores – membros do Legislativo que mais endossam medidas provisórias no mais absoluto fisiologismo.
    Realmente, ele escreveu com propriedade sobre algo que conhece bem: a própria realidade.

    • Humberto, acho que você se confundiu de pagina meu filho.
      Acho que você pensou que estivesse no site do G1.

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