fev
21
2017

O Brasil deveria receber os refugiados sírios?

Todos nós aprendemos a conviver com o conflito da Síria. Quando o telejornal mostra as cenas de destruição, crianças mutiladas e o desespero dos refugiados tentando uma vida melhor na Europa, mandamos os filhos saírem da sala. Assim, podemos ficar indignados com Putin, Assad, islamistas ou americanos, e esperar a novela começar.

Enquanto isso, milhões de sírios não têm para onde ir. Alemanha e Suécia, seguindo o imperativo moral de ajudar ao próximo, receberam centenas de milhares de refugiados, mas já têm tentado fechar a porteira. É a vez do Brasil fazer algo para aplacar a dor das vítimas.

Que país melhor que o nosso para receber uma parcela dos refugiados? Recebemos milhões de imigrantes nos últimos 200 anos e podemos fazer o mesmo hoje. Desde o começo do século XX, sírios e libaneses chegaram para plantar café, comerciar, estudar e contribuir para nossa civilização. Centenas de seus descendentes se sobressaíram na arte, cultura, ciências, política e esporte. E milhões de outros, anônimos, são nossos vizinhos e colegas.

Mas receber refugiados é caro. E não temos dinheiro sobrando.

É mais caro, entretanto, para a Europa. Os números não mentem. A quantidade de pedidos de asilo quintuplicou nos últimos anos. Se tomarmos a iniciativa, podemos negociar um acordo no qual a Comunidade Europeia e os Estados Unidos pagariam a conta para a instalação de algumas centenas de milhares de refugiados no Brasil. Para criar uma barreira à migração aos países europeus, a Turquia recebeu € 6 bilhões da Comunidade Europeia. Com ajuda financeira dos países ricos, poderíamos oferecer um lar permanente aos refugiados.

E não estaríamos apenas alimentando nossa consciência tranquila. Os refugiados sírios, em geral, têm maior nível de escolaridade que a população brasileira, e depois de um período de transição e adaptação, aumentariam a produtividade média. Uma oferta maior de mão de obra qualificada teria o efeito de reduzir a desigualdade e seria bem-vinda já que, em breve, teremos uma redução da força de trabalho com o envelhecimento da população.

Ao fazer parte da solução, o Brasil estabeleceria papel de protagonista. Afinal, país grande não é apenas aquele cujo presidente tem seu jato ou cujas construtoras subornam ditadores de países mequetrefes, mas sim aqueles que demonstram força moral e liderança por um mundo melhor.

Quando o terremoto no Haiti deixou centenas de milhares desabrigados, nos faltou coragem no coração para agir. Os poucos haitianos que aqui chegaram, por conta própria, conseguiram se estabelecer, embora em condições às vezes precárias e já contribuem para nosso país.

Nós sempre carregaremos a vergonha da abolição tardia da escravidão, mas podemos nos orgulhar de termos sido o Eldorado para muitas gerações passadas de imigrantes, hoje brasileiros.

Somos fortes porque temos diversidade. Também podemos ser bons.

 

Originalmente publicado em edição de O Globo, de 24 de novembro de 2016.

 

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Sobre o Autor:

Irineu Evangelista de Carvalho Filho e Rodrigo Zeidan

Irineu Evangelista de Carvalho Filho é economista e Rodrigo Zeidan é professor da Fundação Dom Cabral e da New York University Shanghai.

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4 Comentários Comentar

  • Já há alguma iniciativa oficial a esse respeito?

    • Acabo de ler que houve iniciativa no governo Dilma, porém o atual já está reconsiderando a posição. Uma pena…

  • Acho que o site deveria se limitar a abordar assuntos econômicos. A questao da acolhida de refugiados sirios é muito mais complexa do que fala a materia. A questao do terrorismo nao pode ser ignorada. A questao da capacidade de populaçao islamicas se adaptarem a uma outra cultura é também fundamental. Que au saiba, o Brasil nunca recebeu levas importantes de musulmanos. Sou europeu. Sei dos problemas que isso criou na Europa. Imaginar que a Uniao Européia seria decidida a pagar para ajudar o Brasil a receber essas populaçoes é pura utopia.

  • Qualquer análise que não leve em conta o fato de que o Islã é uma religião beligerante e de submissão não está completa. O islã não é compatível com o sistema democrático do mundo ocidental, então não vejo como possibilidade o recebimento de refugiados muçulmanos no país como se estivéssemos recebendo umbandistas, evangélicos, budistas e católicos.

    O aspecto religioso do problema está sendo sistematicamente ignorado nessa análise

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