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25
2020

Poupança aumentou, mas precisa ser investida

Instabilidade dos recursos depositados pode prejudicar seu uso para investimentos

Em 1.º de setembro virá do IBGE uma péssima notícia sobre a variação do produto interno bruto (PIB) no segundo trimestre deste ano. As estimativas giram em torno de menos 9%(!). A queda foi forte em abril, depois disso a economia vem se recuperando e as previsões para a redução do PIB em 2020 estão perto de 5%, taxa também muito alta. 

Ademais, a pandemia da Covid-19 pegou a economia em depressão, iniciada em 2015, quando o PIB caiu 3,55%, e teve outra queda, de 3,28%, em 2016. No triênio seguinte vieram taxas positivas: 1,32% (2017), 1,32% (2018) e 1,14% (2019), que, grosso modo, só cobriram metade da queda no biênio anterior, e assim não retornou o PIB a seu valor em 2014(!). Fazendo o PIB desse ano=100, ele chegou a 97,1 em 2019. Se cair os referidos 5% neste ano, passará a 92,2. Para voltar a 100 precisaria crescer 8,7%, o que numa hipótese otimista tomaria cerca de três anos, com a recessão comprometendo ainda o primeiro quinquênio da década atual.

No andar dessa trôpega carruagem, como o PIB caiu 1,5% no primeiro trimestre de 2020, a nova queda será apontada por alguns analistas como o início de uma “recessão técnica”. Uma convenção entre economistas diz que ela vem com duas quedas consecutivas do PIB trimestral. Ora, o importante é dizer que a economia terá afundado ainda mais na depressão que começou em 2015! Depressão é algo mais forte e duradouro que recessão.

Agora, uma boa notícia. De março até julho último, a caderneta de poupança, doravante apenas poupança, teve captação líquida – depósitos menos retiradas – fortemente positiva, de R$127,5 bilhões, valor perto de quatro vezes o despendido anualmente pelo programa Bolsa Família. Outra ideia dessa enorme dimensão é que o ministro Paulo Guedes anda às turras com uma ala do governo em torno de verba de “apenas” R$ 5 bilhões, que essa ala quer gastar com investimentos públicos.

Mas poupar mais é bom para a economia financiar novos investimentos em formação de capital, como fábricas, habitações e obras de infraestrutura, que geram emprego e renda e levam ao desenvolvimento sustentável. Não é simples fazer essa poupança virar investimentos. Não se sabe se esse dinheiro ficará permanentemente na poupança, enquanto os investimentos que financiasse seriam pagos a longo prazo, podendo haver um desequilíbrio financeiro se a poupança for sacada no curto prazo. Também pode faltar demanda para novos financiamentos, como o habitacional, que tem na poupança sua fonte principal.

Uma questão a ser investigada pelo Banco Central (BC) é conhecer a origem desses recursos. Ainda não vi dados a respeito, mas provavelmente uma parte veio do pagamento do auxílio emergencial de R$ 600 por mês criado pelo governo. Muitos que o receberam podem tê-lo deixado na poupança como precaução para ter com o que contar mais à frente. Se isso ocorreu em grande magnitude, seria um risco quanto à instabilidade dos recursos captados. 

Sabe-se também que houve uma fuga para a poupança de parte do dinheiro que saiu dos fundos de renda fixa, que perderam R$ 196 bilhões entre dezembro de 2019 e junho de 2020. Depósitos na poupança rendem 70% da Selic, que caiu para 2% ao ano, ou seja, 1,4% ao ano. Mesmo com essa taxa, a poupança tornou-se competitiva diante de fundos que pagam próximo de 2% ao ano, mas, ao contrário da poupança, cobram taxa de administração. E há também o Imposto de Renda (IR) nos fundos, não cobrado na poupança de pessoas físicas. Mesmo sem contar o IR, um fundo com 0,7% de taxa de administração ao ano perderia para a poupança, pois seu rendimento com a Selic atual ficaria perto de 1,3% ao ano. De maio para junho os fundos desse tipo perderam R$ 196 bilhões, mas não sei quanto foi para a poupança. Em princípio, o que foi seria um recurso mais estável do que o dinheiro do auxílio emergencial.

Li que o BC está monitorando esse forte crescimento da poupança, para evitar riscos como o apontado acima quanto a seu uso no financiamento habitacional. Mas esse monitoramento precisa ser rápido, pois também poderia indicar a viabilidade de mais financiamentos habitacionais, algo de que o Brasil carece, e muito. Haveria demanda? Em junho deste ano o financiamento imobiliário cresceu 52% relativamente ao mesmo mês de 2019, segundo o jornal Valor do último dia 18. Mas o volume ainda foi pequeno diante do potencial de recursos que chegaram à poupança. O valor foi de R$ 9,3 bilhões, enquanto de janeiro a maio variou entre R$ 6,4 bilhões e R$ 7,1 bilhões. 

Se houver mesmo problema na demanda, há alternativa também por examinar. Em 25/11/2008 o BC autorizou as instituições financeiras a direcionar parte de seus recolhimentos compulsórios sobre depósitos a prazo para adquirirem papéis emitidos pelo BNDES, financiando-o. Esses recolhimentos sobre a poupança são de 20% sobre os depósitos, e também cresceram muito com o grande aporte mencionado. No BNDES, os recursos assim recebidos poderiam financiar investimentos não habitacionais.

 

Artigo publicado no jornal O Estado de S. Paulo, em 20 de agosto de 2020.

 

Roberto Macedo é Economista (UFMG, USP e Harvard), professor sênior da USP e membro do Instituto Fernand Braudel.

 

 

Sobre o Autor:

Roberto Macedo

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