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2
2020

Em festa de jacu, inhambu não pia

Empresários têm muito a contribuir para o País, mais ainda se houver modéstia e vontade de aprender

 

Usain Bolt foi 11 vezes campeão do mundo e continua sendo, há mais de dez anos, o recordista dos 100 metros rasos. No final da carreira, o atleta resolveu ser jogador de futebol. Sua curta carreira foi frugal e se limitou a times da Noruega e da Austrália.

O ex-secretário de Desestatização Salim Mattar teve estrepitoso sucesso na iniciativa privada. Quis dar uma contribuição maior ao País e mudou de carreira. A lista de suas realizações foi modesta, principalmente para um governo que via a privatização como prioridade. Ficou claro que o ofício da administração pública é um esporte diferente, com regras e objetivos específicos.

Pode-se argumentar que as condições eram adversas e não houve o apoio necessário. Mas o mantra entre os CEOs é de que não pode haver desculpa suficientemente forte para justificar um mau resultado (“não quero saber se o pato é macho, eu quero o ovo”). A grande, essencial diferença é que ambiente corporativo é, por definição, autocrático, ao passo que as regras de convivência democrática impõem a obrigação do debate contínuo e da convivência de opiniões antagônicas, tarefas estranhas ao cotidiano da maioria dos empresários e executivos da iniciativa privada. Os gurus que escrevem patacoadas de autoajuda corporativa gostam de enaltecer o papel das “lideranças” empresariais, um conceito contrabandeado da vida política, mas tudo fica mais simples quando é possível acabar com a insatisfação e a cizânia demitindo os insatisfeitos e os desafetos. A canhestra administração Trump mostra que as dificuldades para transitar de um esporte a outro podem ser intransponíveis.

Entender o Brasil é mais difícil do que entender a vida corporativa. Um país democrático é contraditório, errático, paradoxal e cultiva a divergência como norma. Uma empresa de sucesso tem objetivos unívocos e um plano estratégico decidido por poucos (“manda quem pode”) cuja execução eficaz se assenta na rígida hierarquia (“obedece quem tem juízo”). Claro que, no século 21, existe espaço para as empresas aceitarem a ideia de que sua função social vai além de criar empregos e pagar impostos. Esta pauta soft tem conquistado espaço cada vez maior na agenda das empresas. Mas a feição que assume na vida corporativa vem quase sempre acompanhada do vezo funcionalista do resultado financeiro. Aqui também vale a velha diferenciação entre imperativo categórico e imperativo hipotético que nos ensinou Kant. A diversidade, por exemplo, tema recorrente nas grandes empresas, é vista não como decorrência da mais absoluta e incondicional intolerância contra o preconceito – que é um mal em si mesmo –, mas supostamente porque equipes diversas seriam capazes de obter melhores resultados, argumento tão discutível quanto desnecessário.

Os temas que afetam a sociedade como um todo entram nas empresas por uma pequena janela estreita, a mesma utilizada pelos empresários para enxergar a complexa governança de um país democrático e multifacetado. Há uma tendência natural à vida introspectiva na administração das empresas privadas, o que dificulta o entendimento sobre como funciona o governo e o Estado. No caso brasileiro, isso ainda é exacerbado pelo fato de que a atual geração de executivos bem-sucedidos foi formada sob a sombra do funesto Decreto-lei 477, que criminalizou a discussão política nas universidades.

Mas não há por que sermos tão intransigentes como os jacus e os inhambus. Os empresários têm muito a contribuir para o País, contribuição que será mais efetiva se vier acompanhada de modéstia e vontade de aprender. Do contrário, podemos esperar o desempenho de Romário jogando na NBA. 

 

Artigo Publicado no jornal O Estado de S. Paulo, dia 31 de agosto de 2020.

 

Luís Eduardo Assis é economista, foi diretor de Política Monetária do Banco Central e professor de economia da    PUC-SP e FGV-SP. É membro do Instituto Fernand Braudel.

Sobre o Autor:

Luis Eduardo Assis

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