abr
18
2011

A taxa de juros é a principal causa dos desequilíbrios macroeconômicos do Brasil (e ainda, o Copom pode ser substituído por um computador)?

Quando se discutem os problemas macroeconômicos do Brasil, frequentemente surge o diagnóstico de que a causa de nossos males é a alta taxa de juros. Basicamente, há quatro canais pelos quais os juros altos prejudicariam a economia:

i)                   os juros altos desestimulam o investimento, o que, por sua vez, reduz a aumento da capacidade produtiva. Ao final do processo, a economia não cresce e cria-se um círculo vicioso: a baixa oferta provoca mais inflação, que faz os juros subirem mais, que inibe novos investimentos, o que, ao final, leva a taxas de investimento mais baixas;

ii)                 os juros altos também desestimulam o consumo, porque tornam o consumo presente (em contraposição ao consumo futuro) muito caro. O indivíduo passa a considerar mais seriamente a hipótese de consumir menos hoje e utilizar os recursos poupados (acrescidos dos juros) para consumir mais no futuro. Sem ter consumidores, os empresários decidem reduzir sua produção, e diminuem as contratações. Mais gente sem emprego significa menos consumo, e o círculo vicioso se perpetuaria;

iii)               em situações favoráveis no mercado internacional, os juros altos apreciam a taxa de câmbio porque tornam aplicações em títulos brasileiros mais atraentes. A taxa de câmbio apreciada reduziria a competitividade da indústria nacional, prejudicando nossas exportações e emprego;

iv)               os juros altos aumentam o custo da dívida. O governo tem então de desviar cada vez mais recursos do orçamento para pagar a dívida, deixando de realizar gastos considerados mais produtivos, seja investindo em infraestrutura, educação ou em programas sociais.

Pretendo argumentar neste artigo que a taxa de juros não é causa, mas conseqüência de outros desequilíbrios de nossa economia. Para tanto, explicarei como funciona o regime de metas para a inflação. Por falta de espaço, não discutirei a importância de se manter a inflação baixa e estável. Mas, para citar somente um dos problemas com inflação alta, basta lembrar que, quanto mais alta e volátil a inflação, mais difícil se torna fazer previsões sobre inflações futuras. Assim, quanto mais alta a inflação, maior o desestímulo para contratos de longo prazo, com sérios prejuízos para o desenvolvimento econômico.

Explicaremos então por que o regime de metas para a inflação pode contribuir para que a inflação seja mantida em níveis baixos e estáveis. Aproveitaremos a oportunidade para responder a segunda pergunta do título: o Copom (Comitê de Política Monetária, órgão colegiado do Banco Central que decide a taxa de juros) pode ser substituído por um computador? A resposta para essa pergunta é um claro não.

Sinteticamente, um regime de metas para a inflação é um regime em que o banco central utiliza os instrumentos de que dispõe para fazer com que a inflação atinja uma meta pré-estabelecida.

Uma característica fundamental do regime de metas é que a inflação é o único objetivo da política monetária. Ao descartar outros objetivos, como câmbio ou taxa de crescimento do PIB, o regime de metas ajuda a ancorar as expectativas dos agentes, aumentando a previsibilidade da inflação. Não é que câmbio e PIB não interessem para o banco central. Indiretamente, como essas variáveis afetam a inflação, elas influenciam as decisões sobre política monetária.

Há várias críticas no sentido de que o banco central não se importa com o crescimento do PIB. Em primeiro lugar, já vimos que isso é incorreto porque o nível de atividade influencia a inflação. Em segundo lugar, conforme será discutido mais adiante, há situações em que o banco central deve optar por deixar a inflação subir, para não prejudicar o crescimento econômico. Mas, por que o banco central não deve ter o PIB como meta? Trata-se da escolha do instrumento correto para cada tipo de problema. O crescimento do produto é uma variável real, que depende de fatores estruturais da economia, como disponibilidade de capital (físico e humano), de recursos naturais, produtividade, garantia do direito de propriedade e ambiente institucional. A política monetária consegue influenciar o PIB, se muito, no curto e médio prazo. No longo prazo, a política monetária influencia somente o nível de preços. É mais eficiente, portanto, que a política monetária cuide somente dos preços, utilizando os instrumentos de forma a conduzir a expectativa dos agentes econômicos em direção à meta, e deixar que outros instrumentos sejam utilizados para garantir a estabilidade do produto.

No Brasil, a meta é estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) e, atualmente, está fixada em 4,5% para o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo, divulgado pelo IGBE), com intervalo de tolerância de 2 pontos percentuais. A meta é estabelecida para o ano calendário. Assim, o Banco Central do Brasil (Bacen) terá cumprido a meta se a inflação acumulada no ano até dezembro ficar entre 2,5% e 6,5%. Se não tiver cumprido, terá de redigir uma carta aberta ao Ministro da Fazenda explicando por que não cumpriu, o que fará para que a inflação retorne à meta e em quanto tempo espera que esse retorno se verifique. Observe que, se ao longo do ano, a inflação acumulada nos doze meses anteriores superar 6,5%, não há problemas: a meta só é aferida em dezembro.

O Bacen dispõe de alguns instrumentos para conter a inflação. O principal deles é o controle da taxa de juros básica da economia, chamada de taxa Selic. A meta para a taxa Selic é decidida nas reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom), que se reúne oito vezes por ano. O Comitê é formado pela diretoria do Banco Central, e a decisão sobre a Selic é tomada pela maioria dos membros, não havendo (e, frequentemente, não ocorrendo) necessidade de unanimidade. Um aumento da taxa de juros ajuda a combater a inflação por meio de dois canais principais: demanda agregada e câmbio.

Um aumento da taxa de juros desestimula o investimento e o consumo, conforme explicado nos primeiros parágrafos deste texto. Diante de uma menor demanda, os preços tendem a cair, o que reduz a inflação. Há também o canal do câmbio, descrito no início do texto: um aumento da taxa de juros estimula a entrada de capital externo no país. Isso aumenta a oferta de divisas, o que faz com que seu preço caia. Visto de outra forma, a queda do preço das divisas corresponde a uma apreciação do real. Isso torna os produtos importados mais baratos, e limita a capacidade de reajuste de preços em reais dos produtos exportáveis. Assim, pelo canal de câmbio, um aumento da taxa de juros também tem o impacto de reduzir a inflação.

Destaca-se que há várias outras taxas de juros na economia: as taxas variam conforme o prazo do empréstimo, conforme o tomador (pessoa física ou jurídica, governo ou setor privado), conforme a modalidade do crédito (cartão de crédito, cheque especial, crédito para aquisição de veículos, financiamento imobiliário, hot money, etc). Ainda assim, as demais taxas tendem a acompanhar a Selic, de forma que, quando a Selic varia, as demais taxas tendem a variar na mesma direção. Dessa forma, ao ter o poder de fixar a Selic, o Bacen consegue influenciar (o que é diferente de determinar) as demais taxas de juros da economia.

Há outros instrumentos à disposição do Banco Central, como alíquota de depósitos compulsórios, requerimento de capital ou a taxa de assistência financeira de liquidez. Mas, para o argumento que se segue, é indiferente discutir qual o instrumento utilizado, de forma que podemos simplificar a exposição nos referindo somente à taxa Selic, ou taxa de juros.

A regra geral para a atuação do banco central em um regime de metas seria aumentar os juros (ou usar outros instrumentos com o objetivo de reduzir a inflação) quando projetar uma inflação acima da meta, e reduzir os juros (ou usar devidamente os demais instrumentos) quando a inflação projetada for inferior à meta.

Mas as decisões do Copom são bem mais complexas do que o descrito acima. Em primeiro lugar, não existe a projeção de inflação. Haverá tantas projeções quantos modelos existentes. Haverá modelos projetando inflação acima da meta, outros abaixo da meta. Haverá ainda modelos projetando inflação acima da meta para o ano corrente, e abaixo da meta para o ano seguinte.

Em segundo lugar, há também incertezas sobre como a inflação reagirá a variações nos juros. Não somente as estimativas oferecem diferentes respostas, como essa reação dependerá de circunstâncias específicas do momento em que a decisão for tomada. Por exemplo, o anúncio de um aumento da taxa de juros terá um impacto mais forte sobre a inflação se a diretoria do banco central gozar de maior credibilidade junto à sociedade.

Em terceiro lugar, a melhor resposta do banco central depende dos choques que atingem a economia: se o choque é de demanda ou de custos.

Choques de demanda são choques associados a aumentos inesperados de componentes da demanda agregada, como consumo, investimento, gastos do governo ou exportações. Por exemplo, um aumento de gastos do governo; um estado de maior euforia da população, que estimula o consumo (digamos, em decorrência de ganhar a Copa do Mundo); ou um aumento da demanda externa por nossas exportações.

Já choques de custos estão normalmente associados a fatores que aumentam os custos de produção, ou a variações na oferta. É o caso de quebras de safra, de uma mudança no estado de confiança dos mercados internacionais (que afetam diretamente a taxa de câmbio), de aumentos salariais acima da produtividade do trabalho (por exemplo, em decorrência da fixação de um novo salário mínimo) ou de tragédias naturais.

A reação dos juros também depende da duração esperada do choque. O problema é que só sabemos a duração do choque quando ele termina. Quando o Copom se reúne, tem de definir a taxa Selic sem saber qual será a duração desse choque (por exemplo, quanto tempo durará a crise financeira internacional).

De acordo com a teoria econômica, o banco central deve tentar neutralizar integralmente o impacto inflacionário de choques de demanda. Intuitivamente, choques de demanda tendem a aumentar a inflação e deixar a economia superaquecida (produzindo acima daquilo que é capaz de produzir em condições normais). Um aumento da taxa de juros teria o efeito simultâneo de pressionar a inflação para baixo e permitir que a economia volte a operar em um ritmo normal.

Já choques de custos tendem a pressionar a inflação e a levar a economia para uma situação de desemprego porque desestimulam a produção. Se o banco central tentar neutralizar totalmente o impacto inflacionário de um choque de oferta, aumentando os juros, poderá ser bem sucedido em fazer a inflação voltar para a meta, mas agravará o problema do desemprego. Por esse motivo, a teoria recomenda que o banco central acomode parcialmente um choque de oferta, deixando a inflação subir um pouco, para preservar o produto no curto prazo.

Observe que isso não é contraditório com o fato de o banco central ter como único objetivo controlar a inflação. Está-se apenas sacrificando um pouco da inflação para evitar uma queda forte do produto no curto prazo, o que é diferente de dizer que a política monetária está orientada para garantir que o crescimento do PIB atinja determinado nível. Por outro lado, se o custo a ser pago pela manutenção do crescimento do PIB for uma forte aceleração da inflação, o banco central poderá optará por elevar os juros e manter a inflação na meta.

Novamente, a teoria é bem mais fácil que a prática. Muitas vezes, o mesmo fenômeno traz impactos semelhantes a choques de demanda e de oferta, simultaneamente, e em sentidos opostos. Por exemplo, no início da crise financeira internacional, no segundo semestre de 2008, o aumento da aversão ao risco fez com que houvesse uma tendência de desvalorização do real. Isso corresponderia a um choque de custos. Mas, ao mesmo tempo, a crise financeira empurrou o mundo para uma recessão, o que provocou queda no preço das commodities e na demanda por nossas exportações. Isso corresponde a um choque negativo de demanda. Coube ao Banco Central avaliar qual desses impactos seria o mais relevante para a nossa trajetória de inflação.

Outro exemplo de evento com conseqüências em direções opostas é o terremoto acompanhado de tsunami que atingiu o Japão em março. Por um lado, há um claro choque de oferta: perda de capital físico, problemas para geração de energia, e os estragos em geral diminuíram a capacidade produtiva da economia e, portanto, tem um impacto inflacionário em todos os países que têm vínculos econômicos relevantes com o Japão. Mas a tragédia natural trouxe também uma forte deterioração nas expectativas dos agentes acerca do ritmo da atividade econômica, o que pode ser interpretado como um choque de demanda negativo, com impacto deflacionário.

Todas as incertezas colocadas acima mostram o quão difícil e subjetivo deve ser a decisão a respeito da taxa de juros. Ao contrário do que muitos supõem, a decisão sobre taxa de juros pode ser tudo, menos mecanicista. Modelos econômicos podem ajudar a orientar o Copom, mas a decisão é, antes de tudo, subjetiva: a opção entre diferentes modelos de previsão; a interpretação da natureza do choque; e o quanto o Banco Central está disposto a tolerar de inflação para reduzir o sacrifício em termos de produto; tudo isso depende da interpretação e das preferências de cada membro do Comitê.

Tendo respondido a segunda pergunta (o Copom pode ser substituído por um computador), retornemos à primeira pergunta: os juros são a causa de nossos problemas?

Ora, se os juros constituem uma ferramenta para conter as pressões inflacionárias, as causas de nossos problemas não podem ser os juros. O problema está nos fatores que causam as pressões inflacionárias. Nos últimos anos vimos que, dificilmente, conseguimos sustentar taxas anualizadas de crescimento de 4,5% a.a. por vários semestres seguidos, sem pressionar a inflação. O Banco Central é então obrigado a reagir, aumentando a taxa de juros. Mas, e se o Bacen não reagisse? A economia continuaria crescendo indefinidamente a 5% a.a.? A resposta é não!

A inflação é resultado de um excesso de demanda em relação à oferta (seja porque a demanda aumentou ou porque a oferta diminuiu). Quando o Banco Central aumenta os juros, o desequilíbrio entre demanda e oferta é solucionado, principalmente, via redução da demanda (embora não se possa ignorar que a apreciação cambial permite um aumento da oferta de bens, via importações).

Se o Banco Central não reagir, o equilíbrio, a solução de mercado é um aumento da inflação, pois o aumento de preços reduz a renda real e desestimula a demanda (também é possível um impacto favorável sobre a oferta, pois aumentos de preços estimulam as empresas a produzir e vender mais, mas esse impacto tende a se reduzir à medida que a inflação se torna mais alta e menos previsível).

É possível também uma solução extra-mercado, por exemplo, um racionamento. O racionamento faz justamente o papel do aumento de preços para conter a demanda, porém, de forma mais ineficiente e insustentável no longo prazo. Ou seja, em todas as opções, a economia retornará para um novo equilíbrio, com demanda (e, consequentemente, renda) menor. A diferença é que, com o Banco Central atuando de forma correta, esse equilíbrio é atingido com inflação mais baixa.

E por que não aumentar a oferta? Em primeiro lugar, isso é muito difícil no curto prazo (a não ser via aumento de importações). No médio e longo prazos, é possível, aumentando a produtividade da economia e os investimentos. Mas, para tanto, são necessárias diversas reformas, frequentemente divulgadas na imprensa: redução do tamanho do Estado na economia; maior eficiência dos gastos públicos, com aumento da proporção de investimentos em relação aos gastos correntes; maior investimento (público e privado) em educação e qualificação de mão-de-obra; melhoria do ambiente institucional, com maior garantia para cumprimento de contratos; e aumento da poupança pública e privada, necessário para financiar o aumento de investimentos[1]. Para tanto, devem-se aprovar reformas que reduzam os gastos públicos e o consumo privado. Desvinculação do uso de receitas governamentais, redução de gastos obrigatórios, uma política mais realista para o salário mínimo e uma reforma da previdência que migrasse para o regime de capitalização individual poderiam contribuir para o aumento da poupança doméstica.

Em suma, a taxa de juros Selic é um instrumento para conter a inflação no curto prazo. Garantir as condições para crescimento mais acelerado e inflação mais baixa no longo prazo depende de políticas e instrumentos que estão fora do controle do Banco Central, e que devem ser da responsabilidade de todo o governo, em especial dos Ministérios da Fazenda e do Planejamento.

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Leituras sugeridas

CLARIDA, Richard,  Jordi Gali e Mark Getler: “The Science of Monetary Policy: A New Keynesian Perspective.” Journal of Economic Literature. Vol. XXXVII (December, 1999), p. 1661-1707.

FUNDO MONETÁRIO INTERNACIONAL. “Does Inflation Targeting Works in Emerging Markets?” in World Economic Outlook September 2005. IMF Graphics Section. Washington, DC, Estados Unidos, 2005. Texto disponível em: http://www.imf.org/external/pubs/ft/weo/2005/02/pdf/chapter4.pdf


[1] Há uma identidade básica em economia que diz que poupança é igual a investimento. Em situações normais, se a poupança doméstica é menor do que o investimento, a diferença pode ser suprida via poupança externa, que corresponde ao déficit em transações correntes. O Brasil tem hoje uma poupança doméstica de 16% do PIB. Se quisermos atingir níveis de investimento da ordem de 25% do PIB, será necessária poupança externa, ou déficit em transações correntes, de 9% do PIB. Trata-se de um fluxo extremamente alto e improvável – usualmente, déficits em transações correntes permanentemente acima de 5% já levam um país à crise cambial –, o que aponta para a necessidade de aumento de nossa poupança doméstica.

Sobre o Autor:

Paulo Springer

Editor do Brasil-Economia-Governo, Consultor Legislativo do Senado Federal e Professor do Programa de Mestrado em Economia do Setor Público do Departamento de Economia da UnB.

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26 Comentários Comentar

  • Pelas condições econômicas do Brasil, se esse proteto do “Trem Bala” for concretizado, será uma atitude irresponsável do governo que executar. Isto não é prioritário para o país, com o enorme custo de um pequeno trecho que seria servido, poderia ser construido uma grande malha ferroviária de boa qualidade, servido os principais pontos do país para transporte de cargas e passageiros. Não vejo dificuldade para entender isso, apenas falta de patriotismo e responsabilidade na defesa dos interesses públicos do Brasil.

  • Existem mais dois canais que você não cita: o da redução dos salários e o encurtamento do processo produtivo , ou seja, produziriamos coisas mais vagabundas, porque os nossos salários (exceto os dos funcionarios públicos brasileiros) ficariam igualmente vagabundos. A referência é Hayek.

  • O problema que vejo com a sua argumentação é que deixa os impostos endógenos para fechar o orçamento do governo. Se esse aumento de juros tivesse um custo desprezível para o tesouro, aí poderia até aceitar a sua hipotese de metas inflacionárias como uma estratégia razoável. Mas no patamar em que já se encontram os juros e a sua indexação à divida pública, tal política só aprofunda o deficit público, levando a trajetória da dívida para uma situação explosiva. NEste sentido, vejo que a nova turma do BACEN está sendo muito mais coerente , evitando grandes pancadas nos juros, do que a turma do Meireles. A melhor política, creio eu,dada as limitações políticas, seria a simples desindexação da selic à divida pública.

    • Caro Marco,
      O que você está propondo é aquilo se chama de “dominância fiscal”. O Tesouro gasta e o banco central acomoda. Não acho que seja a melhor solução: esse tipo de política leva a inflações crescentes e desorganização do sistema produtivo, como tivemos ao longo da segunda metade dos anos 80 e início dos anos 90. Reconheço que aumentos na Selic podem ter um impacto sobre as finanças públicas, como você colocou. Mas a solução não é cortar a Selic, e sim os gastos públicos. Temos espaço suficiente para cortes, ou, pelo menos, para impedir que os gastos subam como proporção do PIB (como vem ocorrendo recentemente, inclusive após o anunciado corte de R$ 50 bi do orçamento). Aliás, observe que, quando houve interesse do governo, mesmo com juros altos, houve corte de gastos primários, o que possibilitou a redução da relação dívida`/PIB (é verdade que outros faotres, como a apreciação do real, ajudou a conter a trajetória talvez explosiva da dívida, no início dos anos 2000), e isso permitiu uma queda na taxa Selic. É uma questão de paciência: gastos menores permitirão quedas futuras da taxa de juros. Reverter a disciplina fiscal implicará ou altas taxas de juros (caso o banco central deseje combater firmemente a inflação) ou aumento da inflação (caso o bc acomode). Posto de outra forma, voltamos ao tema do artigo: o culpado pelos nossos desequilíbrios não são os juros, mas uma política fiscal irresponsável.

      Quanto à sugestão de desindexar a Selic à dívida pública, acho que não adiantaria muito. No curto prazo, pode, de fato, dar maior liberdade ao banco central para aumentar os juros sem impactar a dívida pública. Mas, diante de pressões inflacionárias, os agentes econômicos percebem que o banco central deverá aumentar a taxa de juros e passarão a cobrar taxas mais altas nos títulos pré-fixados ou indexados a outra variável.

  • Prezado Paulo, grato pela resposta. Dois pontos: não sou favorável a manutenção do desequilíbrio fiscal e/ou monetário e gostaria de ver elencado quais os itens de gastos primários você elegeria para corte.

    Minha preocupação central é com a trajetória da dívida pública e o seu mecanismo de indexação. Se o governo fosse proibido de emitir divida indexada, grande parte dos problemas fiscais estariam resolvidos. Como sabemos, o governo federal é pródigo em aumentar gastos. Sem a possibilidade de se endividar de forma transloucada, o Governo encontraria limites financeiros para o aumento dos seus gastos. Este é o ponto crítico: o governo tem liberdade demais para aumentar os gastos. A confusão vem na hora de reduzi-lo. Faz todo tipo de contingenciamento e só piora os serviços públicos de uma forma geral.

    Passo a questão chave: onde passar a tesoura do corte ? Salário dos funcionários públicos ?

  • O fato de o governo gastar de mais ou de menos está ligado ao funcionamento de nossa democracia. Muito precária!

    • Caro Marco,

      Obrigado pelos novos comentários. Sobre como cortar gastos públicos, recomendo a leitura do artigo “É possível controlar o gasto do Governo apenas enxugando os desperdícios?”, de Marcos José Mendes, publicado neste site em fevereiro. Realmente não é fácil cortar, mas, de alguma forma, esse problema terá de ser enfrentado.

      A questão do endividamento também é complicada. Em primeiro lugar, ex-ante, todos os títulos devem pagar a mesma taxa, ajustada pelo risco. A questão é que o risco é precificado pelo mercado. Ou seja, não é que o governo não consiga emitir títulos pré-fixados (diga-se de passagem, a proporção de préfixados na dívida pública vem aumentando substancialmente nos últimos anos). A questão é o prêmio que se tem de pagar por esses títulos. E não há como o governo empurrar esses títulos sem pagar o tal prêmio exigido pelo mercado. Dessa forma, do ponto de vista fiscal, pode ser mais interessante manter parcela razoável dos títulos indexados à Selic, principalmente se o governo estiver convicto (mais do que o mercado) de que seguirá políticas fiscais prudentes. Nesse caso, a probabilidade de ter de aumentar a Selic em função de um choque inflacionário qualquer será mais baixa do que a probabilidade que o mercado está (erroneamente) estimando.

  • Prezado Paulo, li o texto que você sugeriu e a conclusão do mesmo é seguinte:.

    Fica claro que não há opções de ajuste fiscal permanente, consistente e com efeito a longo prazo que se baseie apenas no “enxugamento de desperdícios nas despesas de custeio”. Embora seja salutar e desejável que se busque cortar desperdiícios, o ajuste necessário vai além e requer reorientação da ação do Governo em políticas relevantes. É preciso, inclusive, tomar medidas que ajustem a despesa em itens que não foram aqui analisados, como a despesa de pessoal, investimentos e inversões financeiras.”

    Portanto, a solução de cortes no orçamento me parece problemática. Creio eu que, do ponto de vista econômico, o correto seria cortar em mais de 30% os salários dos funcionários públicos. A razão é simples: os salários dos funcionarios públicos estão artificialmente acima do salário de Mercado. Pelos dados que conheço, creio que chegam a ser mais de três vezes o salário de Mercado.

    Finalmente, quanto a sua crença no Mercado para legitimar o patamar de juros que o governo paga, creio estar correta. Mas isso não invalida meu argumento de excluir a indexação da selic à dívida pública. Acho que ,se o governo fosse para o Mercado internacional, conseguiria trocar os juros que paga atualmente pelo praticado no Mercado internacional, ainda mais contando com a possibilidade de oferecer em garantia as reservas do banco central que, como sabemos, num mundo de câmbio flutuante, é totalmente desnecessário que o governo (Banco Central) carregue em seu portfolio o volume que hoje carrega.

  • Como a política fiscal poderia ser utilizada de a forma a permitir que o BC reduza a taxa de juros sem comprometer o seu objetivo de atingir a meta da inflação?

  • […] precisa conter despesas e gastar melhor. Nós, cidadãos, precisamos encarar a realidade de que os juros altos são vilões tão danosos para o crescimento e desenvolvimento sustentável da nação quanto a inflação. O Brasil não […]

  • Ótimo artigo, explica muito bem a relação dos juros com a inflação, além de outras questões que muitos acabam generalizando.

  • Muito bom comentário, num campo em que muitas perguntas surgem, devido a fluência desse mercado de papéis, em que os bens devem andar equilibrados com as informações sobre títulos e demais investimentos. Uma explicação que abrange um contesto geral. Muito bom, parabéns.!

  • Ola Com essa crise qual seria a relação entre essa crise cambial e o estimulo econômico EUA?

  • Olá Paulo.
    Adoramos seu artigo e gostariamos de saber se podemos compartilha-lo em nosso blog, com os devidos créditos e fonte.
    Att
    Daniel.

    • Pode compartilhar. Sem problema. Obrigado.

  • Muito interessante , você deveria estar a frente do ministério da fazenda, por que esse bando de políticos ignorantes e retardados não sabem fazer nada, me adiciona no face book: “the strategist WL Lucas” se puder Paulo Springer, ambos de nos dividimos as mesmas idéias ….

    • Lucas,

      Obrigado pelo elogios. Um abraço,

  • Paulo,

    Gostaria que me explicasse como o aumento da taxa de juros pode interferir na decisão de investimentos dos agentes?

    Obrigada!

  • muito legal esse ponto de vista

  • um cenário de reduzida taxa de desemprego aliada a baixos níveis de crescimento econômico. Como esta combinação pode provocar pressão inflacionária caso o governo deseje estimular um maior crescimento do PIB?

  • Alan, o Brasil está, de fato, em uma sinuca de bico. Usualmente, baixas taxas de crescimento estão associadas a elevadas taxas de desemprego. Nesse caso, políticas tradicionais de estímulo de demanda, como aumento de gastos públicos ou corte da taxa de juros, podem ter um impacto moderado sobre a inflação porque há excesso de mão de obra para ser absorvida. O problema atual do Brasil é que não existe essa mão de obra em excesso. Portanto, não há muito espaço para a oferta crescer. Uma política de aumento de gastos provocaria um aumento da competição por mão de obra (com consequente aumento salarial e pressão de custos), com baixo impacto sobre o crescimento. O que ocorreria é a transferência da mão de obra (e capital e outros meios de produção) de um setor para aquele em que os gastos estariam mais pressionados. É essa competição pelo mercado de trabalho em um ambiente de baixo desemprego que faz com que políticas tradicionais de estímulo de crescimento (leia-se, estímulo à demanda) sejam inflacionárias. Em verdade, a competição se dá também por outros fatores de produção, como terra, energia, alugueis, etc. A forma de resolver o problema necessariamente tem de passar por expansão da oferta. Para isso, é necessário atacar em duas frentes: aumento do investimento e aumento da produtividade. São políticas que devem ter efeito mais no médio e longo prazos, e, sobretudo no caso do investimento, exigiria forte aumento da taxa de poupança doméstica, o que requereria forte alteração na composição dos gastos públicos, com queda nos gastos correntes. O custo eleitoral dessa política, contudo, pode ser altíssimo.

  • Qual o impacto da política monetária na inflação? Quais instrumentos que devem ser adotados? Qual política monetária deve ser priorizada: a contracionista ou expansionista?

  • Luis Deilson · UNISUL – Universidade
    Esqueça tudo que sabe sobre os fundamentos da economia ortodoxa e neoliberal. O país precisa de colocar as contas nos eixose entendo que os primeiros passos são: 1) Baixar a taxa SELIC 1% ao ano, 2) Juros de Transações Comerciais entre empresas e empresas e entre empresas e govervnos de 3% ao ano, 3) Operações de financeira de pessoas físicas devem ter juros anuais de 1%, 4) Nenhum governo ou poder executivo brasileiro emitirá titulos visando captar recursos até esta com as contas equilibradas ou seja gastando menos que arrecada. Esta medidas fará sobra dinheiro no caixa dos governos e também permitirá atodos brasileiros sanar sua dívidas sem dar carlote. E 5) instituir um plano de educação financeira desde da 5 serie para todas as escolas brasileiras sem excessão.

    • Caro Luis,

      Concordo com você com a conclusão (implícita) de que é necessário controlar os gastos do governo, de forma a equilibrar as contas. Também concordo com a importância da educação financeira. Mas daí a fixar a taxa de juros, é um longo passo, que tem mais chance de dar errado do que certo. Os juros entre pessoas físicas ou jurídicas dependem de uma série de fatores, como custos administrativos, inadimplência, tributação, etc, além, é claro, da própria taxa Selic. A única coisa que podemos garantir é que, com contas mais equilibradas, os juros cairão. Mas, para quanto, é o mercado quem deverá decidir. Recentemente o governo Dilma tentou baixar, na marra, a Selic para até 7%, e o que vimos foi o recrudescimento da inflação. Mesmo com contas em ordem, baixar os juros para 1% ao ano pode ser incompatível com a estabilidade de preços.

  • se o bancos cobram juros tão altos como cortão de creditos e cheques espeçial deveria pagar juros melhores quando estão com nosso dinheiro mesmo que fosse na poupança e uma injutiça ganharem tanto e o poupador so perde

  • Foi dessa manera que falaram sobre a economia ou ben ao custo da vida

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